[Você acha que meritocracia é justa em todos os casos? No texto abaixo, Micheal Sandel, John Rawls e Confúcio discutem sobre tal sistema de avaliação.]
A festa de John Rawls
Imagine-se numa festa: existe um DJ, garçons, os anfitriões, os convidados. Quem teria mais importância dentre esses elementos? Muito diriam que são os anfitriões talvez. O que sei é que, hoje, a festa não é sua, a festa não é nossa, e não é de quem quiser. Quem decide isso são os valores arbitrários, ditados por uma sociedade que legitima o mérito em suas necessidades. A priori, o sistema meritocrático é uma forma justa de lidar com os direitos e merecimentos, quando Confúcio , filósofo chinês, o enunciou. No entanto, se ‘’o dono da festa’’ definisse ‘’mérito’’, poderia estar ele se favorecendo? E ainda, quais efeitos essa definição traria para os demais ‘’convidados’’?
Marco Souza, presidente do Sindicato de Ensino Norte Paraná, defendeu a meritocracia como ‘’uma das maneiras mais justas de promoção dos indivíduos’’. Penso que ele deve ser amigo do dono da festa para falar algo assim, já que não considera o que John Rawls, filósofo americano, defendeu sobre a arbitrariedade da moral. ‘’ Se minhas habilidades valem muito ou pouco, isso depende do que a sociedade esteja demandando’’. Na Toscana medieval, pintores de afrescos eram muito valorizados; na Califórnia do século XXI, valorizam-se técnicos em programação informática; recentemente, no Brasil, o ‘’bônus para policiais’’ – pagar mais para quem prende mais – representou a necessidade de segurança que temos ainda. O mérito trata-se de uma pura e simplesmente ‘’oferta e procura’’. Depende do que a sociedade está demandando. Contudo, o que torna esse sistema injusto são as qualidades que essa sociedade valoriza. O que será que classificamos como necessidade?
No ano 2010, os alunos da UNESP, que foram fortemente selecionados pelo vestibular, os ditos ‘’bem-dotados’’, realizaram um ‘’espetáculo’’ chamado Rodeio das Gordas, que consistia em pular em cima de alunas obesas e contar quantos segundos conseguia-se ficar em cima da pessoa. Por mérito, esses alunos entraram numa das melhores universidades do país, e repare que eu não disse um grupo de alunos, mas sim uma quantidade bem relevante, já que o dito ‘’show’’ ocorreu nos jogos-internos da faculdade e, infelizmente, envolvia boa parte de quem estudava lá. Por que esses indivíduos podem comandar e julgar os demais como mais feios, ou menos hábeis? Eles não foram selecionados? É bom nos lembramos de Rawls: a sociedade quer pessoas que saibam lidar com as diferenças fisiológicas e estéticas, ou pede indivíduos que entendam física, química, biologia? O vestibular é um filtro meritocrático que realmente não possui crivos furados pela Espada de Iustiça, a deusa da Justiça.
Que bom seria se o dono da festa fosse Confúcio, não acha? Dificilmente teríamos efeitos negativos após a aplicação da chamada meritocracia. Dificilmente viríamos pessoas montadas em outras. Se pretende-se ter uma festa democrática, é melhor termos a consciência de que todos são importantes, já que cada um exercita diferentes funções. E lembre-se que o mérito depende das qualidades que cada sociedade valoriza. Não vá querer vender afrescos em Yale, ou convencer um trovador que Ipod é bem melhor do que um alaúde.
Direitos Reservados à Muffin Atômico
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